
Mensagem enviada já o ano passado e as respostas recebidas na altura:
Fala da melga:
Antes demais peço desculpa pelo incomodo e se for de alguma forma incorrecta.
Tenho 17 anos, estou a concluir este ano o 11o com média de 16 e estou interessada em seguir Relações Internacionais, contudo devido á crescente taxa de desemprego, á crise económica e outros factores não tenho o apoio dos meus pais para a posterior entrada neste curso.
Gostaria portanto de saber se acompanham os vossos alunos até estes entrarem no mercado de trabalho e outros promenores como o tempo médio até conseguirem o primeiro emprego, se existe ou não uma taxa de "empregabilidade" que seja elevada e se as saídas que estes alunos realmente têm são as saídas profissionais que os senhores indicam ou outro tipo de emprego.
Muito obrigado pelo tempo dispensado,
XXXX
Respostas dadas pelos excelentes senhores:
1a
Cara XXXX,
Sou o professor director do curso de Relações Internacionais (RI).
Não é fácil responder à questão que põe.
Compreendo que seus pais tenham a posição que descreveu, pois decerto querem o melhor para si. É claro que, querendo vir, será muito bem-vinda.
Vou, portanto, dizer-lhe o que penso sobre o assunto em termos gerais, sem atender ao seu caso concreto.
Penso, em primeiro lugar, que quando se escolhe um curso superior se deve fazê-lo por gosto. A prazo, isso tem importância para o desenvolvimento das competências de cada pessoa.
Quanto a emprego/desemprego, neste momento ele existe praticamente em todos os cursos, embora haja excepções.
E o desemprego existe por muitas razões, porque há a crise, porque o próprio processo de Bolonha pretende formar muita gente em pouco tempo, o que significa que a grande maioria das pessoas licenciadas vão ser diplomadas para terem polivalência cultural e até mental. No futuro muito próximo o que irá conferir o título de verdadeiro profissional será o mestrado (já é assim nos cursos que permanecem com 5 anos). No curso de RI a licenciatura tem 3 anos, mas também temos mestrado e até doutoramento. Penso que os alunos que têm ideias, ambição e gosto devem fazer mestrado.
Nós não seguimos os nossos licenciados em termos de emprego. Nem podemos garantir nada aos nossos alunos nesse capítulo. Em rigor, não é função das universidades. E nenhuma universidade pode garantir isso em curso algum, embora haja programas de estágios e similares. Mas isso não é emprego.
O nosso currículo tem um certo perfil de empregabilidade, pois damos aos alunos uma preparação multidisciplinar onde entra o saber das ciências económicas, embora entrem outras áreas, incluindo uma parte de livre escolha do estudante, que pode, assim, "desenhar" em parte a sua formação. É claro que sempre que surgem oportunidades de estágios dirigimos essas possibilidades aos estudantes.
Os cursos de RI são relativamente recentes. Mas têm futuro. A razão é simples: tudo o que se passa hoje à nossa volta, nas mais pequenas coisas, depende de um processo internacional e global. Compreender os fenómenos internacionais, suas causas e seu destino, é importante e decisivo.
A sua importância acresce porque Portugal está integrado na União Europeia, que tem êxitos e dificuldades, mas por isso mesmo, para o bem ou para o mal, é fundamental conhecer o (e participar no) processo europeu de integração supranacional.
Sabe que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, 60% da legislação que actualmente nos rege é oriunda, directa ou indirectamente, dos órgãos da União Europeia? O estudo das razões disso está no âmbito das RI.
Quanto a saídas tradicionais das RI, as normais são: carreira diplomática e consular; carreira em organizações internacionais; carreira em ONG’s; empresas privadas e entidades públicas que trabalhem em projectos internacionais e/ou europeus e transfronteiriços; funções técnicas superiores em entidades públicas centrais, regionais ou locais; assessorado em gabinetes públicos ou privados de estudos internacionais e/ou europeus; assessorado em entidades que, a nível nacional e/ou internacional, se aplicam em sectores tais como: cooperação e desenvolvimento, direitos humanos e ambiente; funções de técnico superior no terceiro sector.
Aproveito para lhe dizer que os estudantes de licenciatura em RI criaram este ano uma revista electrónica para dinamizar o curso (http://dynamisri.webnode.com/).
Por fim, embora isto não seja para os alunos de licenciatura muito importante, comunico que a maioria dos docentes deste curso de RI trabalha e faz investigação em 2 centros de estudos que foram oficialmente avaliados por painel internacional, cada um na sua área (um em relações internacionais [NICPRI] e outro em economia [CEFAGE]), com a classificação máxima de "excellent".
2a
Estimada XXXX
Desde já, e em primeiro lugar, os nossos sinceros agradecimentos pelo seu contacto e pelo interesse manifestado na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Gostaria também de realçar a enorme pertinência das suas questões e o nível de perspicácia que revela pois essas são de facto questões extremamente interessantes mas infelizmente de resposta extremamente difícil. Assim sendo, desde já informo previamente que a resposta que lhe vou dar é numa perspectiva quase pessoal, embora baseada obviamente na observação rigorosa da realidade dos factos e nas experiências que vamos tendo ao longo do tempo.
Assim sendo, o que posso dizer é que o curso de RI na FEUC é assumidamente um curso designado de banda larga, o que significa não ter propriamente uma perspectiva principal de orientação para o mercado de trabalho. Não significa isto obviamente que descuremos a empregabilidade ou que os nossos graduados não sejam formados numa perspectiva técnica que os qualifique para o mercado de trabalho, mas antes que este não é um curso com características de empregabilidade e ligação ao mercado de trabalho como obviamente outros cursos, como engenharias, ou cursos nas áreas da saúde, por exemplo. Quero com isto dizer – e para adiantar um pouco – que os graduados em RI na FEUC obtêm competências para exercerem funções técnicas e o desempenho de funções tipicamente nas áreas e instituições por nós referenciadas, não significando isso, no entanto, que necessariamente todos o consigam. Como sabe, actualmente o mercado de trabalho apresenta variáveis extremamente complexas em que intervêm factores por vezes muito indirectos, e não tanto o fato de o licenciado ter feito a sua formação na instituição X, no curso Y. Posso por exemplo destacar que a Universidade de Coimbra continua – apesar de alguma contra-informação – a ser uma instituição de grande referência nacional e internacional, não só obviamente pela qualidade do seu ensino, mas também pelos seus centros de investigação, pelas redes internacionais de universidades em que está inserida, por uma associação académica com mais de 125 anos que proporciona experiências e vivências irrepetíveis e únicas, etc.
Para concluir, quanto ainda à empregabilidade posso também referir que infelizmente não temos oficialmente um observatório da empregabilidade do qual possamos dar informações sobre o tempo de entrada no mercado de trabalho, etc. Contudo, o que sabemos por experiência (e até porque se trata de um curso com relativamente poucos alunos, o que facilita um maior acompanhamento dos alunos quer durante a sua formação que na entrada no mercado de trabalho) é que embora nem sempre a entrada no mercado de trabalho seja tão imediata quanto sempre se espera e deseja, a verdade é que nos apercebemos de que os nossos graduados depois fazem carreiras profissionais extremamente interessantes, o que será uma questão tão ou mais importante quanto a rapidez na entrada no mercado de trabalho. Refiro ainda que temos um centro de investigação extremamente conceituado (CES – www.ces.uc.pt) classificado como “excelente” e que o coloca como laboratório associado do Estado e que muitos dos nossos alunos têm a possibilidade de iniciar muitas vezes o seu percurso profissional trabalhando em projectos de investigação no CES.
Esperando ter respondido às suas principais dúvidas, caso subsista mais alguma questão, não hesite em contactar-nos, por favor.
Muito Muito obrigada. Honestamente.